Circo Negro, por Ruy Filho

 

foto Rosano Mauro

 

Existem algumas possibilidades de se compreender a crueldade. A partir da modernidade, o homem passa a se perceber parte de um novo modelo, no qual domina a ausência de valores que o mantém seguro e conformado; e também da sua contraposição a isso, mediante um estado de reconhecimento e aceitação do desconforto como naturalidade. A condição de todo o tempo se valer da insegurança e do desconhecido gerou no indivíduo a descoberta por certo prazer na submissão do outro mediante sua humilhação. Nesse sentido, a crueldade retrata a eficácia de outra realidade, ao menos quando esta se refere ao modo como a anulação do outro estabelece a própria sobrevivência. Menos filosófico, porém, também são os argumentos de boa parte do capitalismo moderno, pelo qual um deve subtrair o outro em todas as suas possibilidades, chegando ao extremos de atuar sobre sua emoção e condição física, como meio de torná-lo subserviente e servil. Mas é preciso aceitar haver na crueldade também a transformação da submissão em prazer puro, feito um masoquista em busca de sua humilhação. Se pensada a crueldade na construção dos direitos, a discussão avança para caminhos mais complexos. Diferenciar os homens, a partir de suas necessidades e capacidades, é igualmente uma ação cruel, ou a diferenciação permite aos envolvidos melhor adequação e reconhecimento de necessidades especificas? Enfim, a crueldade pode ser posta em debate pela filosofia, sociologia, economia, religião, psicanálise, ética… O leque é praticamente inesgotável. É necessário, então, escolher algum. No espetáculo Circo Negro, ela se dá pelo viés da crueldade servir ao reconhecimento do que venha a ser a realidade e de quem ali é de fato real. Realidade esta, quebrada sistematicamente com cenas de ações farsescas, cotidianas, elaboradas por gestos repetidos à exaustão e sem qualquer fundamento de serem necessários. Por isso, a realidade se coloca intensamente em cheque. Seria a caricatura uma tentativa superlativa de desenhar o real, ou o real escapa na caricatura de sua face, determinando de modo mais claro aquilo que o é e o que não? Perfeita contradição, própria da liberdade encontrada no universo circense e na necessidade do exagero provocado. No circo há o intuito de comunicar algo à plateia. No espetáculo, todavia, o propositadamente comunicado éabsolutamente inútil, a não ser como exposição de ridículo, controle e crueldade sobre o outro. Existir nesse universo circense bizarro amplia a presença da realidade à concretude do ator em cena. E, por mais que assistamos a um espetáculo teatral, torna-se impossível se desvencilhar do constrangimento ao vê-los tão expostos sobre o palco. Pode parecer se tratar de uma humilhação gratuita, mas esta está mais para o masoquismo do intérprete em se oferecer ao desagradável e à exposição cruel que insiste em ridicularizá-lo, como meios de provocar no espectador igual reconhecimento de sua submissão e inércia. Espetáculo, no melhor sentido do exibicionismo, pelo qual assistí-lo é igualmente se descobrir participante de um circo de contradições. A generosidade e talento dos atores faz da obra do argentino Veronese uma experiência especial. E é preciso dizer ainda, que o trabalho trouxe um dos melhores inícios de espetáculo de todo o festival. Inventivo, controladamente ridículo, criticamente ingênuo e esteticamente muito interessante. Circo Negro é desses espetáculos que poderiam ganhar as estradas e garagens por aí. Em bons e muitos momentos, lembrou, de uma maneira mais atual e jovem, a ironia e sabores do velho e saudoso Teatro do Ornitorrinco.
Foto de Rosano Mauro.
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